Um manifesto pela comida: crítica à revelação gastronômica

manifesto contra revelação gastronômica

No recente debate sobre gastronomia em São Paulo, surge um manifesto contra as revelações exageradas de restaurantes. Os vídeos que destacam restaurantes escondidos frequentemente carecem de substância.

O jornalista Ian Oliver expõe a superficialidade das experiências gastronômicas promovidas por influenciadores. Os conteúdos consumíveis apresentam pratos de forma espetacular, mas pouco discutem a essência da comida.

Essas produções têm se popularizado nas redes sociais, criando uma cultura onde o destaque não está na comida, mas na revelação inusitada. Os restaurantes se tornaram meros cenários para um espetáculo.

manifesto contra revelação gastronômica

O fenômeno das revelações gastronômicas

A internet gastronômica no Brasil tem se mostrado um verdadeiro fenômeno. Em poucos minutos, ao navegar pelo Instagram, podemos nos deparar com 847 restaurantes escondidos em São Paulo e 1.200 lugares que supostamente devemos conhecer. O formato é sempre o mesmo: o influenciador aparece na porta de um estabelecimento, exibindo uma expressão de surpresa, como se tivesse encontrado um local secreto, mesmo que este esteja a apenas duas quadras da Faria Lima.

A frase de efeito habitual é: “GENTE, VOCÊS NÃO ESTÃO PREPARADOS PARA ISSO”. O que se segue é uma edição frenética, com cortes rápidos que visam prender a atenção do espectador.

A superficialidade do conteúdo

A edificação frenética dos vídeos normalmente provoca um impacto superficial sobre a comida em si. Os vídeos começam com uma Cena da Espremida, onde o influenciador emagrece um smash burger triplo, enquanto a carne suculenta escorre por suas mãos. Frases como: “HOJE DESCOBRIMOS O RESTAURANTE MAIS ESCONDIDO DE SÃO PAULO” se tornam comuns, mostrando locais que na verdade têm unidades espalhadas pela cidade e estratégias de marketing muito elaboradas.

Em um, um prato extravagantemente apresentado – como uma carne revestida de ouro – é destacado, apenas para revelar um preço exorbitante ao final da sequência. Porém, essa sequência não se importa em discutir se a comida realmente tem qualidade ou sabor. O que se busca, efetivamente, é uma experiência visual que desencadeia emoções e cliques, gerando engajamento, o que explica o fenômeno do manifesto contra revelação gastronômica.

Esse momento se evidencia quando menos se fala sobre a comida e mais se destaca a revelação. A cena precisa ser chocante e o queijo precisa derreter de maneira dramática, e, se houver alguma sobremesa explosiva, melhor ainda. Se um prato é apresentado como “o melhor”, ninguém questiona as qualidades, e a opinião se torna um mero enfeite dessa nova forma de publicidade.

Impacto da edição frenética

O que chamamos de gastronomia contemporânea parece ter sido moldado por um único editor que vive em uma ciclo de criação e produção incessante. As transições, os efeitos sonoros e as expressões continuam repetindo-se com uma fórmula eficiente que atrai visualizações nas redes sociais. O mesmo fundo musical, os closes nos pratos e a tensão dramática são uma constante que se refere menos ao sabor do que à produção em si.

Na verdade, é uma forma de pasteurização completa da gastronomia. Não importa o tipo de cozinha apresentada; o ambiente precisa apenas de cortes rápidos e frases de efeito para gerar o que chamam de uma experiência única. O maior feito dessa nova escola é produzir mil vídeos sem que ninguém realmente avalie o que estão consumindo ou mesmo se a comida é boa o suficiente.

Dessa forma, o manifesto contra revelação gastronômica não fala apenas sobre a superficialidade do fenômeno, mas também sobre a falta de honestidade em avaliações culinaristas, que se tornaram intercambiáveis e quase irrelevantes na medida em que as opiniões se tornam tão genéricas que podem ser trocadas por qualquer outro produto. Os processos de avaliação e opinião estão ameaçados por uma nova forma de percepção, onde a comida é apenas um detalhe dentro de uma prática de marketing mais ampla.